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30 junho 2014



 Era uma manhã cinzenta por causa da fina garoa que caia vagarosamente. Milca estava chorosa nesse dia, querendo estar a todo o momento no colo da mãe. Raquel já tinha conversado com a pequena sobre a pequena separação, alegando que seria um pequeno passeio.
Ás dez horas o pai de Sarah, um homem muito grande – alto e largo – assomou á porta do quarto, não sem antes pigarrear.
- As malas já estão no carro. – seu grosso bigode balançou ao falar. Parecia ainda mais espesso e brilhante nessa manhã. Sarah confidenciou à Vera certa vez que seu pai passava óleo de oliva nos bigodes para amaciá-los
 Raquel abraçou uma vez mais as filhas. Joana, vestida num grosso casaco de lã, parecia magoada com mãe, embora essa tivesse de todos os meios tentado convencê-la de que seria apenas por uns meses e que tão logo estivesse em condições, as traria de volta.
- Bom precisamos ir – disse o homenzarrão. – O avião não espera. – brincou, e pegando Milca nos braços caminhou fortemente pela porta e saiu para a rua. Sarah e a mãe as aguardavam na sala.
- Fiz biscoitos. – disse a mãe de Sarah. Era sempre muito gentil e sempre com um prato de biscoitos a oferecer. Dizia que biscoitos de chocolate curavam até a alma. Vai ver ela tinha razão. E colocando o saquinho de biscoitos na mochila de Sofia – Pra comer no avião. – cochichou.
- Algum recado pro Carlos. – Sarah cochichou no ouvido de Vera quando se abraçaram. Estava brincando obviamente. Vera era tímida demais para mandar qualquer recado que fosse.
- Só o mantêm longe da Diana. – Vera piscou.
- Se já acabaram com os cochichos, podemos ir agora antes que percamos o vôo? – perguntou Joana já na porta. Estava com o semblante ainda mais fechado. E olhando para a mãe. – Já que estamos sendo mandadas embora, que vamos logo então, não quero me atrasar.
Raquel quis dizer alguma coisa, mas sua voz não saiu. – Deixa, ela vai acabar entendendo depois. – acalmou-a Vera, colocando carinhosamente a mão sobre seu ombro. – Eu falo com ela. – sorriu carinhosamente.
A Viagem para Torres, Santa Catarina foi tranqüila. Raquel comprou assentos na mesma fileira e Milca tinha se acalmado enfim. Joana não tinha falado uma só palavra durante toda a viagem já em compensação Sofia não parava de falar, mas nem isso fez com que Joana falasse nem que fosse para brigar com a irmã. Porém quando finalmente o avião aterrissou, ela olhou sarcasticamente para Vera e disse: - Então chegamos não é? Talvez ela não nos mande embora também.
Vera não discutiu, sabia que a irmã estava magoada e nada a faria mudar de idéia naquele instante. Teriam outra oportunidade para discutir sobre tudo o quê aconteceu. Agora ela precisava ficar com seus pensamentos.
No saguão do aeroporto logo avistaram tia Gertrudes. Aquela figura esguia e alta de cabelos grisalhos e olhos vivazes não era difícil de esquecer ou não notar, ainda mais vestida rigidamente e cinza escura, assim como seus olhos.
- Oi tia Gertrudes. – Gritou Sofia tão logo a viu. – Estamos aqui. – acenou vivamente.
Tia Gertrudes, pela cara que fez, não gostou dos gritos da pequena e apressou-se até elas, fazendo sinal a um homem uniformizado para que a acompanhasse. Era até engraçado ver tia Gertrudes, magra e alta feito um espeto andando tão ereta sendo seguida por aquele homenzinho barrigudo que mal conseguia acompanhá-la.
- Ola meninas, fizeram uma boa viagem? – perguntou enquanto fazia sinal para que o motorista se encarregasse das malas.
Sofia correu e abraçou as longas pernas da tia. – Estava com saudades de você.
- Oh! – Exclamou a tia, assustada e constrangida com a manifestação de carinho da sobrinha. – Sim, sim criança, eu também. – disse tentando soltar as mãos da menina de suas pernas. – Ora, por favor, está me amarrotando toda.
- Como vai tia? – Vera cumprimentou enquanto puxava Sofia pelo braço. – pare com isso Sofi, o quê a mamãe falou sobre ficar abraçando toda hora a velha Gertrudes? – Vera cochichou não que quisesse ser indelicada ao chamar a tia de velha.
- Vai quebrar ela ao meio. – Joana ironizou baixinho, não porque estivesse bem humorada, mas porque debochava da figura magra e ereta da tia.
Tia Gertrudes caminhava altiva, com seus ombros estreitos indicando o caminho que as meninas deveriam fazer e que, geralmente, era o de segui-la. Logo atrás, um pouco ofegante, ia o motorista com seu rosto agradável de homem do sul descendente de italianos, provavelmente, ou quem sabe de portugueses, típico de Passo de Torres. Raquel havia dito ás meninas que aquela pequena cidade do sul de Santa Catarina fora colonizada por portugueses, italianos e espanhóis. A própria tia Gertrudes era uma típica espanhola.
- Isso explica talvez o fato de que minha tia seja tão autoritária e brava.  – Mas não há o quê se preocupar, ela não morde. – disse fazendo cócegas em Sofia, que caiu na maior algazarra.
Vera lembrava-se disso agora, ao ver a tia com o cenho franzido e os lábios contraídos como se estivesse sempre com uma insatisfação qualquer.
A temperatura estava realmente baixa. Joana, vestida em seu grosso casaco de lã, aquecida, saboreava agora o fato de Vera ter dito que derreteria debaixo daquela Lã toda enquanto que agora a irmã tremia os dentes e tentava como podia proteger-se do vento.
Sorte a mãe ter colocado na mochila de Milca e Sofia blusas extras.
- Para o caso de esfriar. – justificou como sempre fazia, mesmo em dias quentes.
Lá fora caia uma chuva fina e gelada, tia Gertrudes esfregou as mãos vigorosamente, e apontou para um carro que estava estacionado a poucos metros das meninas.
- Não acredito. Mas que velharia é essa? – Vera ficou boquiaberta diante daquele carro velho, um dodge conforme disse o simpático e orgulhoso motorista, numa cor verde água muito apagada.
- Porque não estou surpresa? – Joana revirou os olhos num desdém, mas Sofia não compartilhou da decepção das irmãs e, motivada pela euforia de sempre correu para dentro do carro como sempre fazia quando saiam com a mãe.
Tia Gertrudes não compartilhou da alegria da menina, e repreendendo-a, pediu para que ficasse quieta alegando uma dor de cabeça. Sofia não era dessas que desistia fácil, pois todo o trajeto do aeroporto até a casa foi fazendo mil perguntas e mexendo em casa pedacinho daquele carro que estivesse ao alcance de suas mãozinhas ágeis, embora tia Gertrudes a olhasse energicamente e Joana a beliscasse de dois em dois minutos para que ficasse quieta, mas quando chegaram finalmente em frente ao portão da casa, elas não puderam a creditar no que estavam vendo.
-Uaaaauuu! Sofia foi a primeira a exclamar, aliás, a única, porque Joana e Vera estavam perplexas demais para emitir qualquer ruído.

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