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30 junho 2014



De frente para uma grande coruja empalhada que ficava sobre o armário de tubos, Vera sentiu-se ligeiramente desconfortável com aqueles olhos amarelos que pareciam encará-la. Mas todas as outras mesas, com exceção da que estava Diana, estavam ocupadas.
- Desculpe por aquilo. – Carlos desculpou-se, sentando a seu lado. Olhava-a com seus olhos brilhantes e isso a fazia segurar a respiração.
Vera estremeceu. Carlos tinha mexido com ela desde o primeiro dia de aula, mas sabia que suas chances eram nulas com ele, até porque do alto de seu corpo torneado pelos esportes que praticava sua bela cabeça loura não iria sequer notar uma sem graça garota magricela e pior, a nerd da sala.
- Oi? – Por segundos ela havia se perdido naquele olhar e esquecido o episódio da sala. - A, não claro que não, está tudo bem. – O tom de sua voz denunciava que estava nervosa, e se odiou por aquilo.
- Aquela coruja me dá arrepios. – Carlos comentou, sorrindo. - Aqueles enormes olhos amarelos sempre fixos, perecendo nos espionar.  Em você não?
- Pensei que era só eu. – Vera Conseguiu enfim falar uma frase sem que gaguejasse ou balbuciasse. – Eu a acho medonha. Ambos sorriram e vera achou naquele sorriso algo de cumplicidade. Carlos compartilhava com ela o mesmo sentimento sobre aquela coruja enigmática. Isso era fantástico.
- Bom dia minhas crianças lindas. Espero que estejam animados porque hoje iremos brincar muito.
Rubens, o professor de biologia, não era exatamente o tipo de mestre que a professora Azera aprovaria, justamente por ser o oposto dela.  Isso sem mencionar apenas o fato de ser um grande homem, na estatura e mais que isso, no grande coração, na grande mente brilhante, no grande caráter e na grande gentileza com que tratava seus alunos.
Endireitando-se em sua cadeira, Vera mal conseguia respirar e no pouco que o fazia sentia aquele inebriante perfume masculino que Carlos exalava.
- O homem, em sua arrogância, pensa em si mesmo como uma grande obra, merecedora da intervenção de uma divindade. Alguém sabe de quem é essa famosa frase? –
- Charles Darwin. – Respondeu Carlos
- Isso mesmo meu excelentíssimo Aluno. E sabe me dizer quem são os habitantes mais antigos do planeta? – Perguntou naquele seu jeito espirituoso em que levantava uma das sobrancelhas e umas das mãos ficava suspensa no ar esperando uma resposta.
- As bactérias.
– Esplêndido. – Aplaudiu, socando o ar. – Estima-se que as primeiras bactérias surgiram aproximadamente a 3,8 bilhões de anos atrás. E os estromatólitos, - registros fósseis para quem ainda não sabe, - evidenciam a existência dessas bactérias que viveram a mais de três bilhões de anos atrás.
- A teoria da evolução. – resmungou Alberto sentado logo atrás de Vera. – Mas já vou avisando de que eu não vim do macaco.
- Ótimo, temos um criacionista aqui.  – Disse o professor Rubens de muito bom humor, o quê abriu o leque para discussões na sala sobre o tema.
Vera já se sentia menos nervosa ao lado de Carlos, que agora sorria absorto nos comentários e discussão, por vezes acalorado e acalmado pelo professor, que mediava o assunto e intervia entre os mais apimentados.
Quando enfim as aulas terminaram, Vera viu-se frente ao Carlos, cadernos encostados no peito, seguros por uma mão enquanto a outra segurava a mochila sobre o ombro. Aquilo era real? Ele estava ali na sua frente sorrindo com aqueles dentes perfeitamente alinhados?
- Bom então até amanhã. – ela disse primeiro. Um nervoso sorriso apareceu rapidamente em seus lábios.
- Até amanhã. Bom se quiser posso te dar uma carona.
O encanto acabou quando Joana chegou perto.
- Vamos logo. Mamãe está esperando. – disse olhando de relance para Carlos medindo-o sem ser educada, com aqueles olhos que dizem: E daí se você é bonito? Dane-se.
Aquilo foi um balde de água fria sobre Vera. Sentiu-se uma criança tola que precisava da mamãe para acompanhá-la até em casa. Um calor subiu à sua face e percebeu e que estava vermelha.  Conseguindo apenas acenar, virou as costas imediatamente, caminhando depressa. Estaria ele agora rindo dela? Uma criança tola e ingênua isso sim. Se derretendo toda só porque o cara mais gato da escola disse meia dúzia de palavras para ela.
Vera andava pela grama e de longe podia ver Vera e Joana brigando uma com a outra enquanto sua mãe, sentada ao volante dizia alguma coisa. Provavelmente mandava-as parar e dizia algo do tipo “não agüento mais” e” preciso urgente de férias”. A mãe estava cansada já de tudo aquilo.
Vera estava cansada também. Desde que seu pai faleceu há dois anos sentia como que um peso caísse sobre sua família. A mãe trabalhando dobrado para dar conta de tudo aquilo e ela, Vera, tornara-se uma jovem responsável pela criação de suas irmãs. Na verdade das duas menores já que Joana, assim como ela, já não era criança há algum tempo.
Mas Joana mudara desde que seu pai morrera. Antes uma menina doce, amável, agora parecia estar sempre de mal do mundo, rancorosa, amarga.

Já tinha pedido inúmeras vezes á mãe para voltar sozinha com suas irmãs para casa. Moravam a poucos quarteirões da escola e podia dar conta do recado. Mas a mãe, chegando num stress de preocupação que já extrapolava o limite aceitável, se negava veementemente alegando os perigos da cidade, os maníacos possíveis que poderiam abordá-las e os acidentes que supostamente poderiam sofrer. Então não, esse assunto não estava aberto a discussões e, portanto Vera continuaria pagando mico toda a vez que sua mãe chegava buzinando na porta da escola para buscar a ela e sua irmãs.
- Filha pegue Milca para mim, por favor. – Pediu para Vera assim que estacionou na frente da confortável casa de dois andares com varanda em que moravam.
Não eram ricas, obviamente, mas tinham um teto confortável e algumas economias que o pai deixara. Mas a Mãe trabalhava muito para que nada faltasse, chegando a um ponto de varar a noite frente ao computador fazendo horas extras.
Vera sabia que a mãe tinha vindo de uma família rica. Aliás, a única ainda viva de sua árvore genealógica ascendente era a tia de sua mãe, portanto sua tia-avó Gertrudes, uma rica solteirona que morava no interior. Mas sabia também que ambas tinham rompido assim que sua mãe casara com seu pai. Isso de fato causou um rompimento entre as duas. Por anos ficaram sem se falar quando tia Gertrudes declarou sua desaprovação ao casamento da sobrinha e ameaçou com fortuna que tinha. Com a morte do pai de Vera, houve uma reaproximação, mas Raquel não pode deixar de sentir mágoa da tia e negar veementemente qualquer ajuda financeira. Tinha orgulho próprio, dizia.
- Porque sempre pede para eu fazer tudo, Joana está ao lado de Milca, peça a ela que pegue. – Vera não quis ser rude com a mãe, mas sentia-se cansada de tudo aquilo.
Raquel nada respondeu; passando a mão pelas têmporas, como sempre fazia quando ficava sem saber o que responder.
- Ela pediu para você Vera, suas vantagens por ser a mais velha. – Respondeu Joana. E virando as costas para a irmã - Não se esqueça de pegar também a mochila da creche.
Vera se irritou com Joana, sempre pronta para uma discussão, cheia de agressividade, com uma resposta mal criada na ponta da língua sempre a espera. Era quase impossível a comunicação das duas.
- Mãe olha o que ganhei. – Sofia corria em volta da mãe querendo mostrar a lembrança de aniversário que ganhara da festinha.
- Oh que lindo Sofi, realmente maravilhoso.  – Raquel passou ligeiramente a mão sobre a cabeça da filha enquanto caminhava apressadamente e segurava em um dos braços várias pastas de trabalho.
- É uma tiara de princesa, veja.  – Sofia colocou a tiara brilhante na cabeça e segurando com as pontas do dedo a barra da saia, abaixou-se delicadamente.
- Realmente maravilhoso querida, mas mamãe não pode falar com você agora, tudo bem? Podemos falar sobre isso mais tarde? Quem sabe vemos um filme? O quê acha? Barbie e as princesas? – Raquel não parou para conversar, caminhava enquanto falava e era acompanhada pela filha com a aquela cara de quem não ganhou a atenção que desejava.

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