Translate


30 junho 2014



A casa havia sido consumida pelas labaredas. Não havia o quê salvar. Tudo havia sido reduzido a cinzas. Raquel tinha sido amparada pela família de Sarah, amiga de Vera, mas a verdade é que estavam sem um lar. Raquel não tinha mais a casa que morou com a família desde que se casara com Marcos. E quando ele faleceu naquele trágico acidente, achou que não conseguiria sobreviver. Mas reagiu. Fez isso pelas filhas e agora elas eram tudo o que lhe restara.
Raquel tinha seu emprego, é verdade. Mas não poderia viver na casa da família de Sarah. Foram muito gentis em ceder o único quarto vago para que ela e suas filhas ficassem, mas sabia que não era definitivo. Teria que instalar suas filhas em outro lugar e não poderia demorar.
Portanto Raquel tomou uma decisão. Por mais que lhe doesse e fosse contra seus princípios, uma vez que jurara a si mesma que jamais lhe pediria ajuda ou algo do gênero, era de suas filhas que ela estava falando, e não poria em jogo a estabilidade e conforto delas por uma questão que lhe ferira tanto no passado. Era hora de olhar para frente.
- Falei com minha tia Gertrudes. – falou certa manhã
Joana e Vera se entreolharam. Sabiam da separação entre as duas e a causa disso. Sabiam que a mãe jamais recorreria a ela se não fosse uma causa excepcional; e não era essa a causa? E continuou:
- É eu seu. Disse mil vezes que nunca pediria ajuda a ela mesma, aliás, principalmente depois que o pai de vocês faleceu. – Raquel se levantou e andou pelo quarto onde estavam hospedadas e que agora reunira as filhas para aquela reunião, com exceção de Milca que estava com Ilma, mãe de Sarah, para que ela tivesse aquela difícil conversa com as filhas. Colocou as mãos na parte baixa das costas e bufou. – A questão é que agora tudo mudou. Não temos mais casa e, vocês sabem, não podemos ficar para sempre aqui.
- Eu gosto daqui. – respondeu Sofia na ingenuidade de seus sete anos.
Raquel passou as mãos pelas têmporas e olhou firme para a filha.
- Eu sei, eu também gosto. Ilma tem sido ótima e nos recebeu muito bem, mas... – a mãe agora se sentou na beirada da cama onde estava Sofia e tomou a mãozinha da filha nas mãos. - mas nós não podemos ficar aqui pra sempre. Essa não é a nossa casa. É a casa deles. Raquel virou o rosto para o lado. Não queria que as filhas vissem que seus olhos estavam úmidos.
Vera, que até então estava calada encostada na janela vendo a pequena Milca brincando no quintal com Ilma, disse:
- Nós estamos com você mãe. O que quer que a gente faça?
- Quero que vocês vão para a casa da tia avó de vocês. – Disse de uma vez, sem rodeios.
Aquilo caiu como uma bomba sobre as meninas. Ir para a casa da tia? Aquela velha solteirona esticada e magra feito um pau que até um dia atrás a mãe jamais concebera a idéia de sequer ir visitar?
Durantes vários segundos o silêncio foi brutal. Não acreditavam que haviam escutado aquilo direito e Vera chegou a pensar que não o escutara.
- Mas mãe, a tia Gertrudes é uma velha feia. – Sofia quebrou o silêncio, e Raquel foi a única que sorriu, forçosamente.
- Querida não fale assim.
- Ela é repugnante. E odiava o papai. – disse Joana após se recompor do baque.
- Joana! – a mãe a corrigiu severamente, embora não discordasse de todo.
- Joana tem razão. – exclamou Vera, por fim. – Ela odiava o papai, você mesmo disse isso pra gente.
Joana, encorajada pela irmã ter lhe dado razão, prosseguiu.
- Mãe eu só vi tia Gertrudes três vezes na vida, e duas foram depois que papai morreu, quando ela veio pela primeira vez até nossa casa, você mesmo disse que preferia que ela não viesse.
- É eu sei. E disse a verdade – Raquel concordou
- Então porque agora quer nos mandar pra ela? – Essas últimas palavras foram ditas um pouco altas demais. O que dizia que Joana estava magoada, chateada e com muita raiva.
Uma lágrima desceu pelo rosto de Raquel, o quê fez com que Vera caminhasse até sua mãe e a abraçasse.
- O quê vamos fazer? – a pergunta era sincera; realmente Vera queria saber a solução que a mãe tinha para elas e sabia que qualquer que fosse, seria a melhor. – Quer dizer, você disse que nós teremos que ir para a casa de tia Gertrudes, mas... Está nos dizendo que não irá com a gente?
- Não posso. – sabia que as filhas não iriam aceitar, mas era a única solução. – Vera sabe que meu trabalho está aqui, não posso largá-lo, principalmente agora. Como irei sustentar vocês e...
- Vai abandonar a gente? – Milca 
Milca estava com os olhos cheios d’água e fazendo aquele beicinho tremido de quando vai chorar.
- Claro que não amor. – Vera pegou a filha no colo e secou seus olhos com os polegares. – Sabe que nunca faria isso. É só por uns tempos. – em seguindo sorriu e puxando as filhas para junto de si – Prometo que será divertido.
Vera estava triste e decepcionada tanto quanto as filhas, mas agora que haviam perdido tudo as filhas precisariam de um lar em que elas estivessem em segurança e conforto e, apesar das desavenças com tia Gertrudes, não havia outra pessoa em que poderia confiar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pela sua visita!
Gostou do post? Comente e deixe seu link para que eu possa ir visitá-lo ( a).
Beijos e seja sempre bem vindo!