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30 junho 2014

Sinopse

Quando quatro irmãs perdem a casa em que moram com a mãe num grande incêndio e são obrigadas a irem morar com a tia-avó Gertrudes numa suntuosa casa em outro estado elas nunca poderiam imaginar os segredos que a propriedade esconde
Vera é uma adolescente de dezessete anos que após a morte do pai num acidente se torna responsável pelas irmãs quando a mãe se joga no trabalho para sustentá-las
Joana é a irmã de quinze anos rebelde e reclusa em seu mundo após a morte do pai
Sofia é uma graça de meninas de seis anos que sonha com princesas, muito meiga e tagarela
Milca é a caçula de três anos que juntamente de suas irmãs, vai conhecer o misterioso bosque que fica no fundo da propriedade da tia e acabam caindo num poço que é uma passagem secreta para um mundo paralelo onde criaturas do bem são subjugadas por Yanna, a senhora das sombras há duas décadas.
Acreditando que elas são as enviadas que a profecia mencionou, as criaturas do bem desejam que elas lhes salvem da senhora das sombras, mas as meninas não compartilham da mesma crença e desejam apenas partir. Mas quando estão tentando voltar para casa Milca é raptada pela grande coruja branca, Amal, e levada para o castelo de Yanna. Joana e Vera também discutem e num acesso de raiva Joana corre para a floresta e se perde.
Vera não vê outra saída e é obrigada a recorrer ao centauro da montanha, Onirius, na esperança de que ele a ajude a salvar suas irmãs.

No final a batalha entre o bem e o mal será inevitável

Crônicas de Silbery - O segredo do bosque

Vera esta no meio de um campo de batalha. Desesperada procura suas irmãs, mas vê apenas poeira levantada e estranhas criaturas de outro mundo que lutam entre si ferozmente. Grita por alguém, mas sua voz não sai, tenta correr, mas seus pés estão presos ao chão e quando olha para baixo não são seus pés, mas no lugar grossas raízes fincadas na terra. Percebe então que ela faz parte daquele lugar e em uma de suas mãos surge uma enorme espada que reluz um brilho tão forte que chega a ofuscá-la, mas ao olhar para a lâmina surge um rosto de mulher, tão pálida quanto à neve que cai, ela gargalha diabolicamente e alguém grita.
- Vera cuidado. – Vera vira-se tão rápido quando pode e então ela está ali, frente a frente. Seus olhos muito abertos fixam-se nos de Vera e sua mão sobre um cajado se eleva para feri-la.
- Vera! Vera...
Alguém toca em seu braço e ela sente a quentura do toque, vira-se e vê sua mãe a seu lado.
- Querida acorda! Uma voz meiga soa em seus ouvidos
Num sobressalto ela senta da cama. Está banhada em suor mais uma vez.
- Criaturas estranhas novamente? Pergunta a mãe tirando dos olhos de Vera uma mecha úmida de cabelo.
- Uhum. – murmurou a filha.
- Você está cansada demais minha filha. – E pegando um livro que estava caído no chão, leu o título. – A Senhora das sombras Desde quando se interessa por isso?
- Desde que comecei a sonhar com essas coisas. – Vera bocejou, estava se sentindo muito cansada.
- Querida são apenar sonhos. Não pode se impressionar com isso e devorar todos os livros que encontrar. Não deveria estar estudando para a prova quando perde tempo com essas leituras? Filha já estamos no fim do semestre e sua professora me disse que suas notas caíram significativamente.
- Mãe, caiu pra oito – Respondeu Vera revirando os olhos – Isso nem chega a ser significativo. E quando falou com ela?
- Ok, ela exagerou nos termos.  Estava outro dia no supermercado e encontrei-a na banca das verduras e ela me abordou de imediato. Nossa ela é estranha.
Ambas riram.
- Se diz que ela é estranha deve estar falando da professora Azera... – Vera não terminou a frase, olhou no relógio e deu um pulo da cama.
- Mãe porque você não me acordou? –
- Mas estava te chamando há dez minutos.
Vera correu para tomar uma ducha enquanto Raquel descia para aprontar a pequena Milca. Tinha que deixar as filhas na escola e correr para o trabalho. Ser mãe de quatro filhas e conciliar com o trabalho realmente era uma rotina estressante. As manhãs eram sempre corridas e tanto ela quanto as filhas acabavam sempre chegando atrasadas por mais que Raquel tentasse o contrário.
- Mãe que droga vou chegar atrasada outra vez? – Bom dia para você também, Joana. Um sorriso cairia bem nesse seu rostinho lindo. – Joana fechou ainda mais a cara. De manhã era ainda mais mal humorada que o habitual. Mordeu um pedaço de biscoito de chocolate quando Sofia entrou na cozinha e revirou os olhos ao constatar, mais uma vez, que a irmã estava vestida de princesa.
- De novo não. Mãe quer dizer á ela que não é uma princesa? Está mais para uma sapa.
- Joana, por favor... – Repreendeu a mãe. – Sofi, sabe que não pode ir vestida assim pra escola. Filha já conversamos sobre isso.
- Mas mãe hoje é aniversário da Sandy, não é um dia normal.
- Filha o aniversário da Sandy é só depois do intervalo, e até lá você terá aula normal, não será nada confortável ficar com essa roupa cheia de panos.
- Sabia que falaria isso. Você está ficando chata viu mãe? – respondeu a filha, tirando o vestido ali mesmo. Por baixo daquela fantasia de princesa já trazia vestida o uniforme da escola em caso da mãe a barrar.
- Ótimo, agora eu sou a chata. Ò não Milca.  – exclamou quando a caçula virou o suco sobre a blusa, correndo para auxiliá-la, e gritando:
- Vera traz uma blusinha para Milca.
- Mãe estou aqui, não precisa gritar. – Respondeu a filha já sentada á mesa tomando o café.
- Que família de loucos. – resmungou Joana.
- Filha corra lá e pegue a blusinha...
- Já peguei. – Disse Vera entregando-lhe a blusa rosa.
Raquel a olhou estranhamente
- É isso todo dia. – justificou-se a filha. – Já pensou em colocar um babador nela?
- Obrigada. - Respondeu a mãe sem tirar os olhos de Vera. Estava a mãe ficando repetitiva? – Boa sugestão.
- Mãe podemos ir agora? – Joana Perguntou pegando a grande mochila preta e colocando-a no ombro direito.
- Sim. Sim filha vão indo para o carro. Apressou-se Raquel limpando as bochechas de Milca
- Mas eu ainda não tomei meu café. – reclamou Sofia
- Tome. – disse Joana entregando à irmã uma banana. – parece uma macaca mesmo, pulando de um lado para outro.
- Não sou não Gritou Sofia - Mãe...
Correram as duas para o carro enquanto Vera pegava Milca no colo e a mãe, agradecida, pegava a bolsa da creche e sua pasta do escritório.
- Eu vou na frente. – Gritou Sofia correndo
- Não eu vou. – Respondeu Joana também correndo
- Nenhuma das duas vai. – interveio a mãe. – Vera sentara na frente.
- A que surpresa. – ironizou Joana.
- Vantagem de ser a mais velha. – Cutucou Vera
A briga continuou até a primeira parada quando Raquel desceu correndo do carro e entregou a filha e a pasta para auxiliá-la da creche, que sorria interrogativa.
- Mãe - Vera chamou atrás dela.
- Oh, desculpe. – Riu nervosa, pegando a bolsa da filha que Vera a entregava e passando para auxiliá-la, que a entregava a pasta do escritório.
Deixou finalmente as outras três filhas na porta do colégio. – Comportem-se heim? – Recomendou como sempre. – Beijo filhas.
Mas as três já tinham virado as costas e andavam em direção à entrada com exceção de Sofia, que corria. O portão já estava trancado, mas o amável vigia de bochechas vermelhas, já habituado ao atraso das irmãs, abriu-o todo sorridente
- Manhã difícil hein meninas? – Brincou.
- Bom dia Euclides. – Sofia cumprimentou alegremente, enquanto passava como um foguete, seguida de Joana que fingiu que não ouviu e Vera, como sempre educada.
- Desculpe por isso novamente. - Desculpou-se.
- Não por isso meninas.  – Respondeu o vigia alegremente.
Vera bateu timidamente na porta da sala, sabia que a severa professora Azera não gostaria nem um pouco de seu atraso. Murmurou um desculpe e entrou.
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Crônicas de Silbery - o segredo do bosque

Olhando através de seus grandes óculos para o relógio dourado que estava acima da lousa, Azera cruzou os braços e bateu repetidamente o pé direito no chão até que Vera sentasse em seu lugar.
- Bom, agora que Vera está confortavelmente instalada, se não tiver mais nenhum inconveniente que me interrompera novamente, poderemos prosseguir com nossa aula de hoje. – Disse Azera com sua fina voz que combinava perfeitamente com seus um e sessenta de altura e quarenta e sete quilos.
- Falávamos sobre a literatura jesuítica. Vera, já que chegou atrasada, mais uma vez, poderia nos dizer quem foi José de Anchieta? -
Vera odiava aquela exposição. Sentia-se invadida. Todos estavam agora concentrados nela, olhando enquanto esperavam sua resposta.
- José de Anchieta foi um padre jesuíta espanhol um dos fundadores da cidade de São Paulo. – disse numa sonoridade baixa.
- Oras, por favor, Vera, uma resposta mais completa. – Azera não gostava de respostas resumidas em sua aula, exigia que dessem vazão ás mentes e mais que isso, que as respostas fossem iguais na medida do que ela passava aos seus alunos, ainda que decoradas.
- José de Anchieta nasceu em 19 de março de 1534 em Tenerife, Espanha. Em 1551 ingressou na Companhia de Jesus, em Portugal e dois anos depois embarcou com destino ao Brasil, na comitiva de Duarte da Costa - segundo Governador Geral - para catequizar os índios. 
- Bravo. – A professora de literatura explodiu numa salva de palmas excessivamente alta. O que fez com que os alunos se entreolhassem num comprimido sorriso. – Bravo Diana. Isso mostra que alguém está realmente interessada em minhas aulas. – e continuando com uma voz uma oitava mais alta do que o normal...
- Estou ficando decepcionada com você Vera. Antes uma aluna que eu usava como modelo, já hoje tenho minhas dúvidas se realmente está aqui, uma vez que está sempre alheia, dispersa. – Sob a forte luz da manhã que entrava pelas amplas janelas da sala, Azera parecia anda menor, como que soterrada pela maciça claridade.
Diana, a aluna que respondeu à pergunta, olhou com seus grandes olhos verde para Vera e jogou o longo cabelo castanho para trás. Vera sabia que Diana não gostava dela, e mais que isso, sabia que a bela menina de olhos verdes insinuava-se para Carlos, o belo garoto dos sonhos de Vera.
A primeira aula foi uma exposição pela qual Vera não esperava. De cabeça baixa e os cabelos cobrindo o rosto, torcia que ninguém a notasse enquanto rabiscava nervosamente um papel. Tudo o que queria era que aquela manhã terminasse logo e ela pudesse voltar para casa. Para Seus livros. Ao menos com eles podia ser ela mesma e o que era melhor, não passava de uma expectadora, sem ninguém que a observasse.
- O Dragão de meio metro já foi. – Aquela voz a tirou de seus devaneios de um jeito que não esperava. Sua respiração parou e seu coração acelerou e antes que levantasse a cabeça um segundo depois sabia a quem pertencia àquela forte voz aveludada.
- Você fez isso? – Carlos apontou para o esboço do rosto de uma elfa lindamente desenhada.
- Sim eu... Bom isso não é nada. – Vera cobriu o desenho colocando o caderno sobre ele. Corou imediatamente e não sabia para onde olhar. Não ousava encará-lo
- Isso é genial. Não é sério. – Carlos percebeu que Vera estava desconfortável e arrependeu-se por ter sido tão direto, talvez inoportuno. –

- Obrigada – E recolhendo os materiais para ir para a sala de biologia. – Bom é melhor nós irmos. – disse cobrindo o peito com os cadernos. Ela achava seus seios pequenos demais e achava que isso afastava os garotos.
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De frente para uma grande coruja empalhada que ficava sobre o armário de tubos, Vera sentiu-se ligeiramente desconfortável com aqueles olhos amarelos que pareciam encará-la. Mas todas as outras mesas, com exceção da que estava Diana, estavam ocupadas.
- Desculpe por aquilo. – Carlos desculpou-se, sentando a seu lado. Olhava-a com seus olhos brilhantes e isso a fazia segurar a respiração.
Vera estremeceu. Carlos tinha mexido com ela desde o primeiro dia de aula, mas sabia que suas chances eram nulas com ele, até porque do alto de seu corpo torneado pelos esportes que praticava sua bela cabeça loura não iria sequer notar uma sem graça garota magricela e pior, a nerd da sala.
- Oi? – Por segundos ela havia se perdido naquele olhar e esquecido o episódio da sala. - A, não claro que não, está tudo bem. – O tom de sua voz denunciava que estava nervosa, e se odiou por aquilo.
- Aquela coruja me dá arrepios. – Carlos comentou, sorrindo. - Aqueles enormes olhos amarelos sempre fixos, perecendo nos espionar.  Em você não?
- Pensei que era só eu. – Vera Conseguiu enfim falar uma frase sem que gaguejasse ou balbuciasse. – Eu a acho medonha. Ambos sorriram e vera achou naquele sorriso algo de cumplicidade. Carlos compartilhava com ela o mesmo sentimento sobre aquela coruja enigmática. Isso era fantástico.
- Bom dia minhas crianças lindas. Espero que estejam animados porque hoje iremos brincar muito.
Rubens, o professor de biologia, não era exatamente o tipo de mestre que a professora Azera aprovaria, justamente por ser o oposto dela.  Isso sem mencionar apenas o fato de ser um grande homem, na estatura e mais que isso, no grande coração, na grande mente brilhante, no grande caráter e na grande gentileza com que tratava seus alunos.
Endireitando-se em sua cadeira, Vera mal conseguia respirar e no pouco que o fazia sentia aquele inebriante perfume masculino que Carlos exalava.
- O homem, em sua arrogância, pensa em si mesmo como uma grande obra, merecedora da intervenção de uma divindade. Alguém sabe de quem é essa famosa frase? –
- Charles Darwin. – Respondeu Carlos
- Isso mesmo meu excelentíssimo Aluno. E sabe me dizer quem são os habitantes mais antigos do planeta? – Perguntou naquele seu jeito espirituoso em que levantava uma das sobrancelhas e umas das mãos ficava suspensa no ar esperando uma resposta.
- As bactérias.
– Esplêndido. – Aplaudiu, socando o ar. – Estima-se que as primeiras bactérias surgiram aproximadamente a 3,8 bilhões de anos atrás. E os estromatólitos, - registros fósseis para quem ainda não sabe, - evidenciam a existência dessas bactérias que viveram a mais de três bilhões de anos atrás.
- A teoria da evolução. – resmungou Alberto sentado logo atrás de Vera. – Mas já vou avisando de que eu não vim do macaco.
- Ótimo, temos um criacionista aqui.  – Disse o professor Rubens de muito bom humor, o quê abriu o leque para discussões na sala sobre o tema.
Vera já se sentia menos nervosa ao lado de Carlos, que agora sorria absorto nos comentários e discussão, por vezes acalorado e acalmado pelo professor, que mediava o assunto e intervia entre os mais apimentados.
Quando enfim as aulas terminaram, Vera viu-se frente ao Carlos, cadernos encostados no peito, seguros por uma mão enquanto a outra segurava a mochila sobre o ombro. Aquilo era real? Ele estava ali na sua frente sorrindo com aqueles dentes perfeitamente alinhados?
- Bom então até amanhã. – ela disse primeiro. Um nervoso sorriso apareceu rapidamente em seus lábios.
- Até amanhã. Bom se quiser posso te dar uma carona.
O encanto acabou quando Joana chegou perto.
- Vamos logo. Mamãe está esperando. – disse olhando de relance para Carlos medindo-o sem ser educada, com aqueles olhos que dizem: E daí se você é bonito? Dane-se.
Aquilo foi um balde de água fria sobre Vera. Sentiu-se uma criança tola que precisava da mamãe para acompanhá-la até em casa. Um calor subiu à sua face e percebeu e que estava vermelha.  Conseguindo apenas acenar, virou as costas imediatamente, caminhando depressa. Estaria ele agora rindo dela? Uma criança tola e ingênua isso sim. Se derretendo toda só porque o cara mais gato da escola disse meia dúzia de palavras para ela.
Vera andava pela grama e de longe podia ver Vera e Joana brigando uma com a outra enquanto sua mãe, sentada ao volante dizia alguma coisa. Provavelmente mandava-as parar e dizia algo do tipo “não agüento mais” e” preciso urgente de férias”. A mãe estava cansada já de tudo aquilo.
Vera estava cansada também. Desde que seu pai faleceu há dois anos sentia como que um peso caísse sobre sua família. A mãe trabalhando dobrado para dar conta de tudo aquilo e ela, Vera, tornara-se uma jovem responsável pela criação de suas irmãs. Na verdade das duas menores já que Joana, assim como ela, já não era criança há algum tempo.
Mas Joana mudara desde que seu pai morrera. Antes uma menina doce, amável, agora parecia estar sempre de mal do mundo, rancorosa, amarga.

Já tinha pedido inúmeras vezes á mãe para voltar sozinha com suas irmãs para casa. Moravam a poucos quarteirões da escola e podia dar conta do recado. Mas a mãe, chegando num stress de preocupação que já extrapolava o limite aceitável, se negava veementemente alegando os perigos da cidade, os maníacos possíveis que poderiam abordá-las e os acidentes que supostamente poderiam sofrer. Então não, esse assunto não estava aberto a discussões e, portanto Vera continuaria pagando mico toda a vez que sua mãe chegava buzinando na porta da escola para buscar a ela e sua irmãs.
- Filha pegue Milca para mim, por favor. – Pediu para Vera assim que estacionou na frente da confortável casa de dois andares com varanda em que moravam.
Não eram ricas, obviamente, mas tinham um teto confortável e algumas economias que o pai deixara. Mas a Mãe trabalhava muito para que nada faltasse, chegando a um ponto de varar a noite frente ao computador fazendo horas extras.
Vera sabia que a mãe tinha vindo de uma família rica. Aliás, a única ainda viva de sua árvore genealógica ascendente era a tia de sua mãe, portanto sua tia-avó Gertrudes, uma rica solteirona que morava no interior. Mas sabia também que ambas tinham rompido assim que sua mãe casara com seu pai. Isso de fato causou um rompimento entre as duas. Por anos ficaram sem se falar quando tia Gertrudes declarou sua desaprovação ao casamento da sobrinha e ameaçou com fortuna que tinha. Com a morte do pai de Vera, houve uma reaproximação, mas Raquel não pode deixar de sentir mágoa da tia e negar veementemente qualquer ajuda financeira. Tinha orgulho próprio, dizia.
- Porque sempre pede para eu fazer tudo, Joana está ao lado de Milca, peça a ela que pegue. – Vera não quis ser rude com a mãe, mas sentia-se cansada de tudo aquilo.
Raquel nada respondeu; passando a mão pelas têmporas, como sempre fazia quando ficava sem saber o que responder.
- Ela pediu para você Vera, suas vantagens por ser a mais velha. – Respondeu Joana. E virando as costas para a irmã - Não se esqueça de pegar também a mochila da creche.
Vera se irritou com Joana, sempre pronta para uma discussão, cheia de agressividade, com uma resposta mal criada na ponta da língua sempre a espera. Era quase impossível a comunicação das duas.
- Mãe olha o que ganhei. – Sofia corria em volta da mãe querendo mostrar a lembrança de aniversário que ganhara da festinha.
- Oh que lindo Sofi, realmente maravilhoso.  – Raquel passou ligeiramente a mão sobre a cabeça da filha enquanto caminhava apressadamente e segurava em um dos braços várias pastas de trabalho.
- É uma tiara de princesa, veja.  – Sofia colocou a tiara brilhante na cabeça e segurando com as pontas do dedo a barra da saia, abaixou-se delicadamente.
- Realmente maravilhoso querida, mas mamãe não pode falar com você agora, tudo bem? Podemos falar sobre isso mais tarde? Quem sabe vemos um filme? O quê acha? Barbie e as princesas? – Raquel não parou para conversar, caminhava enquanto falava e era acompanhada pela filha com a aquela cara de quem não ganhou a atenção que desejava.
- Mão você não vai assistir filme comigo. – A voz de Sofia estava mais para conformada do que decepcionada, o quê causou ainda mais desconforto em Raquel. Ambas cruzaram os olhos e Sofia sorriu para ela de um jeito maduro que Raquel não desejou ter visto e isto a magoou.
- Vai trabalhar em casa o resto da tarde? – Vera perguntou assim que colocou Milca da cadeirinha e, abrindo o potinho de comida, colocou-o no micro-ondas para aquecer.
- Sim querida. Sabe que conto com você para cuidar da casa, não é?
- Sim mãe. – Vera respondeu automaticamente e virou-se para retirar o pote assim que o micro-ondas apitou anunciando que o aquecimento terminara.
- Filha está tudo bem? Estou achando você tão distante – Raquel aproximou-se da filha e pegou em suas mãos.
- Claro mãe, porque não estaria?  - Vera disfarçou, retirando a mão.  Caminhou até o outro lado da cozinha e abrindo a gaveta pegou a colher que Milca usava para fazer suas refeições.
- É só... Filha sabe que pode contar comigo, não sabe? – A mãe fez aquela cara de cansada que deixava sua testa com três linhas de expressão. Vera sabia o quanto Raquel dava duro para sustentar as quatro filhas desde que seu pai morreu. As mesmas correrias de sempre, as contas para pagar, o trabalho duro que continuava além do horário e as muitas vezes que acordava no meio da noite e ouvia sua mãe chorando. Quando ia até seu quarto, via-a abraçada á foto do marido, conversando e desabafando sobre tantas coisas que Vera não ousava perturbá-la e voltava para cama na ponta dos pés, como se não tivesse presenciado aquilo. Nunca disse à mãe que sabia disso. Nunca contou à Joana que a mãe chorava à noite, mas desconfiava que a irmã também soubesse, quando a flagrava olhando para a mãe com uma mistura de amor e dó.
- Mãe, está tudo bem, prometo. Deixe-me dar comida para Milca porque ela já está impaciente.
- Claro. – Raquel afastou-se para que Vera passasse. – Às vezes acho que sobrecarrego você.  – Cruzou os braços e ficou olhando Vera enquanto a filha dava a papinha à irmã com igual ou mais prática que ela própria.
- Mãe, não tem muito trabalho a fazer? Pode deixar que eu cuido de minhas irmãs. – Vera dispensou a mãe de forma suave. No fundo não estava a fim de bater aquele papo; não naquele momento.
- O quê tem para comer Vera? – Sofia entrou feito um furacão na cozinha, dando um esbarrão na mãe que saia.
- Bom hoje nós temos arroz, feijão, banana assada e bolo de carne. Está bom para a senhorita? – Vera brincou, limpando a boca de Milca e a pegando no colo. – Joana pode por o almoço para Sofi enquanto coloco Milca para dormir?
Joana entrou na cozinha e foi direto para a geladeira, olhando por um longo tempo.
- E por acaso a bebezinha não pode se alimentar sozinha? – Perguntou Joana fechando a porta da geladeira com o pé e abrindo uma garrafa grande de iogurte.
- Já falei que não sou bebezinha, sua cara de uva azeda - Gritou Milca.
- Joana apenas aqueça para ela, é pedir demais? –
- Joana apenas aqueça para ela, é pedir demais? – Joana imitou irritantemente e após tirar o lacre da garrafa, bebeu no gargalo.
- O quê? Não acredito que fez isso. Sabe que isso é anti-higiênico?
Joana deu ainda mais um longo gole e recolocou o lacre na garrafa.
- É mesmo? – perguntou com cara de espanto. – Oh e agora? Serei punida por ser uma menina má? - colocou os dedos sobre os lábios.
- Porque você tem que fazer isso? – quis saber Vera.
- Isso o quê? – Joana insistia em ser insolente e provocativa
- Não vou fazer seu jogo. – Vera deu as costas para a irmã e pegou Milca no colo. Contornando a mesa de granito, pediu á Sofia que esperasse até que fizesse a pequena Milca dormir e voltasse para aquecer ser almoço.
- Está olhando o quê? – Joana perguntou á Sofia.
- Vou contar pra mamãe que bebeu na garrafa. – Sofia ameaçou, apertando os olhos e trancando os dentes, como sempre fazia quando queria se fazer ameaçadora.
Joana limitou-se apenas a mostra-lhe a língua. E colocando a garrafa na geladeira. Passou por Sofia e deu um tapa em sua cabeça.
- Vê se cresce pirralha.
- Eu não sou pirralha sua anta. Vou contar mesmo. E tomara que sua cara fique cheia de catapora e nenhum menino queira beijar você.
Essas ultimas palavras foram gritadas, e lá do escritório Raquel também gritou, pedindo silêncio.
- Desculpe. – Sofia balbuciou.
O grande incêndio

- Jura que ele sentou do seu lado? – perguntou novamente Sarah.
- Estou te falando Sa, ele simplesmente sentou e pediu desculpas por ter olhado meu desenho. E olha que aquilo estava um horror – lembrou de repente Vera. – Aquele desenho era só uns rabiscos e ainda assim ele elogiou, dá pra acreditar?
- Nossa, estou nude. – Sarah suspirou
- Eu também amiga. Ainda não acredito. Mas pelo menos me tirou a imagem da Azeda dizendo: estou muito decepcionada com você Vera, antes uma menina exemplar...
Ambas caíram na gargalha. Azeda era o trocadilho que faziam com o nome da professora Azera.
Sarah era a melhor amiga de Vera. Quando está perdeu o pai, Sarah ficou a seu lado o tempo todo e até passou algumas semanas em sua casa, dormindo na mesma cama e consolando quando está chorava.
Sarah tinha a mesma idade de Vera, 17, e era uma moça negra muito linda com lábios levemente proeminentes e olhos muito vivazes, o quê chamava a atenção dos rapazes. Raquel, de pele branca e cabelos claros, assim como seus olhos, sentia-se uma branquela sem graça ao lado da amiga, mas a amizade das duas era mais forte que qualquer coisa.
- E aquela Diana jogando o cabelo. – risos- Totalmente sem noção... espera um segundo... – disse Vera à amiga.
Um forte cheiro de queimado invadiu seu quarto quase com a mesma precisão com que sua mãe gritava por ela.
- Droga. Preciso desligar, acho que a casa está pegando fogo. – Vera brincou
- Está tudo bem amiga? - Sarah perguntou preocupada
 - Sim. Acho que sim. Deve se Joana queimando nosso almoço. Depois nos falamos...
- Vera corre, está pegando fogo. – dessa vez a voz de Raquel pareceu mais estridente e assustada que de costume, o quê fez com que Vera corresse
Vera saiu rapidamente de seu quarto e ao chegar ao topo da escada encontrou-se com uma negra fumaça que saia da sala e chegava aos primeiros degraus da escada.
- Mãe. o quê está acontecendo? – Vera gritou. Definitivamente aquilo não estava parecendo um almoço queimado.
- Filha não desça pelas escadas. Tente a janela.
Realmente a janela não era uma boa escolha. Estava no andar de cima, a uma altura de seis metros do chão. Subitamente desesperou-se.
- Filha pegue Milca e vá para a janela. - Raquel gritou. Estava desesperada, mas Vera sentia uma firmeza em sua voz e uma autoridade tal que a fazia seguir o comando de sua voz sem hesitar. A fumaça subia pela escada como a sombra da noite já apontava no topo. Manter a calma seria a primeira coisa a fazer, em seguida teria que pegar Milca no quarto conjugado com o da mãe.
Correu pelo curto corredor até a porta. Milca ainda dormia, mas a fumaça já provocava tosses na menina. Vera olhou pela janela a fim de ver a altura, mas naquela parte da casa era impossível pular; havia muitas madeiras velhas e algumas pontiagudas que certamente poderia feri-las fatalmente.
Pegou então um cobertor e enrolou a pequena o melhor que pode. Chegando à porta viu que já havia labaredas chegando. O desespero quis tomar conta de sua mente, mas sua irmã dependia dela. Os gritos de sua mãe eram cada vez mais desesperadores.
Então lembrou que a janela do banheiro, embora estreita, tinha uma passagem suficiente para que ambas passassem. Não ouvia sirenes então deduziu que ainda não havia chegado os bombeiros. Correu para o banheiro e fechou a porta.
- Certo. Calma. Vai dar tudo certo. – seu coração pulava em seu peito, sua respiração acelerada estava cada vez mais difícil e Milca havia acordado e chorava agora enquanto esfregava os olhos, que ardiam. Estava assustada.
Logo abaixo da janela do banheiro havia um patamar onde antes tinha sido uma sacada. Após a reforma fecharam e transformaram num banheiro, mas tinham deixado não se sabe por que, aquele pequeno patamar, provavelmente para ser demolido depois. Estava com os tijolos quebrados pela ação do tempo, mas Vera não tinha outra opção.
- Vão ter que agüentar. – ela disse. E colocando Milca sobre a bancada da pia, subiu na janela e com um pequeno esforço passou por ela. – Querida vem com a Vera. – disse para a irmã que agora chorava ainda mais alto. Atraída pelo choro da filha, Raquel correu até aquela parte da casa, e agora, acompanhada de Joana e Sofia, gritava aflita para que a filha tomasse cuidado.
- As pedras estão soltas Vera, não vá para a beirada.
Mas o quê Vera podia fazer? Não havia mais saída para ela. Voltar para dentro era impossível, já a casa estava tomada pelas labaredas. Ouvia agora o soar das sirenes do bombeiro. Tudo que precisava era pegar Milca.
- Querida vem com a Vera, vai ficar tudo bem. – mas Milca, uma criança de apenas três anos, sem entender muito do que se passava lá dentro e tossindo muito, chorava desesperadamente. Vera temia que aquela fumaça fizesse sua irmã desmaiar, o quê seria ainda mais difícil tirá-la de lá. Labaredas já entravam por baixo da porta.
- Querida, segure nas mãos da Vera, tudo bem? – Vera ficou nas pontas dos pés e conseguiu segurar nas mãozinhas de Milca. – Isso, agora eu vou te puxar e você vai segurar no meu pescoço, ta bom? – Milca balançou a cabeça em afirmativa, Vera a puxou e ela segurou no pescoço da irmã, mas quando ela passou pela janela alguns blocos se desprenderam e Vera vacilou. Os gritos de sua mãe e irmãs romperam no ar.
Respiração curta e coração batendo forte, Vera temia que um movimento a fizesse cair e também a sua irmã. Foi nesse instante que, notando algo passar pelas suas costas e bater forte contra a parede, Vera percebeu que era uma escada e que por ela, subindo rapidamente, um grande homem uniformizado subia a seu encontro. Era um bombeiro
- Rápido, por favor. – balbuciou.
- Está tudo bem, calma, fique calma. – disse o bombeiro assim que chegou até as meninas. – Devagar se vire para mim.
- Vera obedeceu e muito devagar, mexendo os pés vagarosamente e ainda segurando sua irmã muito forte, apertada a si, ficou de frente ao bombeiro.
- Isso. Muito bom. Vera é seu nome?
- Sim. – Vera murmurou dura feita estátua.
- Muito bem Vera, me passe primeiramente sua irmã, Ok? Primeiro a menina.
 Muito devagar Vera passou para ele a irmã, que ainda chorava, mas agora não tanto quanto antes.
- Ótimo. Preciso que fique ai, segure-se firme. Vou passar sua irmã ao sargento Wilson e em seguida pegarei você.
- Aham. - compreendeu
Muito rapidamente o bombeiro passou ao sargento a pequena Milca e questão de segundos já segurava a cintura de Vera junto a si, ajudando-a a passar para a escada.
Já no chão, abraçada pela mãe e por Sofia, Vera chorava numa mistura de soluções e murmúrios incompreensíveis. Estava muito assustada e ainda mão compreendia o quê havia se passado. Num minuto havia subido para fazer sua irmã dormir e no momento seguinte a casa havia pegado fogo.
Suas penas tremiam enquanto uma atenciosa agente do corpo de bombeiros colocava sobre seus ombros uma manta e em seguida a guiava para uma ambulância.


A casa havia sido consumida pelas labaredas. Não havia o quê salvar. Tudo havia sido reduzido a cinzas. Raquel tinha sido amparada pela família de Sarah, amiga de Vera, mas a verdade é que estavam sem um lar. Raquel não tinha mais a casa que morou com a família desde que se casara com Marcos. E quando ele faleceu naquele trágico acidente, achou que não conseguiria sobreviver. Mas reagiu. Fez isso pelas filhas e agora elas eram tudo o que lhe restara.
Raquel tinha seu emprego, é verdade. Mas não poderia viver na casa da família de Sarah. Foram muito gentis em ceder o único quarto vago para que ela e suas filhas ficassem, mas sabia que não era definitivo. Teria que instalar suas filhas em outro lugar e não poderia demorar.
Portanto Raquel tomou uma decisão. Por mais que lhe doesse e fosse contra seus princípios, uma vez que jurara a si mesma que jamais lhe pediria ajuda ou algo do gênero, era de suas filhas que ela estava falando, e não poria em jogo a estabilidade e conforto delas por uma questão que lhe ferira tanto no passado. Era hora de olhar para frente.
- Falei com minha tia Gertrudes. – falou certa manhã
Joana e Vera se entreolharam. Sabiam da separação entre as duas e a causa disso. Sabiam que a mãe jamais recorreria a ela se não fosse uma causa excepcional; e não era essa a causa? E continuou:
- É eu seu. Disse mil vezes que nunca pediria ajuda a ela mesma, aliás, principalmente depois que o pai de vocês faleceu. – Raquel se levantou e andou pelo quarto onde estavam hospedadas e que agora reunira as filhas para aquela reunião, com exceção de Milca que estava com Ilma, mãe de Sarah, para que ela tivesse aquela difícil conversa com as filhas. Colocou as mãos na parte baixa das costas e bufou. – A questão é que agora tudo mudou. Não temos mais casa e, vocês sabem, não podemos ficar para sempre aqui.
- Eu gosto daqui. – respondeu Sofia na ingenuidade de seus sete anos.
Raquel passou as mãos pelas têmporas e olhou firme para a filha.
- Eu sei, eu também gosto. Ilma tem sido ótima e nos recebeu muito bem, mas... – a mãe agora se sentou na beirada da cama onde estava Sofia e tomou a mãozinha da filha nas mãos. - mas nós não podemos ficar aqui pra sempre. Essa não é a nossa casa. É a casa deles. Raquel virou o rosto para o lado. Não queria que as filhas vissem que seus olhos estavam úmidos.
Vera, que até então estava calada encostada na janela vendo a pequena Milca brincando no quintal com Ilma, disse:
- Nós estamos com você mãe. O que quer que a gente faça?
- Quero que vocês vão para a casa da tia avó de vocês. – Disse de uma vez, sem rodeios.
Aquilo caiu como uma bomba sobre as meninas. Ir para a casa da tia? Aquela velha solteirona esticada e magra feito um pau que até um dia atrás a mãe jamais concebera a idéia de sequer ir visitar?
Durantes vários segundos o silêncio foi brutal. Não acreditavam que haviam escutado aquilo direito e Vera chegou a pensar que não o escutara.
- Mas mãe, a tia Gertrudes é uma velha feia. – Sofia quebrou o silêncio, e Raquel foi a única que sorriu, forçosamente.
- Querida não fale assim.
- Ela é repugnante. E odiava o papai. – disse Joana após se recompor do baque.
- Joana! – a mãe a corrigiu severamente, embora não discordasse de todo.
- Joana tem razão. – exclamou Vera, por fim. – Ela odiava o papai, você mesmo disse isso pra gente.
Joana, encorajada pela irmã ter lhe dado razão, prosseguiu.
- Mãe eu só vi tia Gertrudes três vezes na vida, e duas foram depois que papai morreu, quando ela veio pela primeira vez até nossa casa, você mesmo disse que preferia que ela não viesse.
- É eu sei. E disse a verdade – Raquel concordou
- Então porque agora quer nos mandar pra ela? – Essas últimas palavras foram ditas um pouco altas demais. O que dizia que Joana estava magoada, chateada e com muita raiva.
Uma lágrima desceu pelo rosto de Raquel, o quê fez com que Vera caminhasse até sua mãe e a abraçasse.
- O quê vamos fazer? – a pergunta era sincera; realmente Vera queria saber a solução que a mãe tinha para elas e sabia que qualquer que fosse, seria a melhor. – Quer dizer, você disse que nós teremos que ir para a casa de tia Gertrudes, mas... Está nos dizendo que não irá com a gente?
- Não posso. – sabia que as filhas não iriam aceitar, mas era a única solução. – Vera sabe que meu trabalho está aqui, não posso largá-lo, principalmente agora. Como irei sustentar vocês e...
- Vai abandonar a gente? – Milca 
Milca estava com os olhos cheios d’água e fazendo aquele beicinho tremido de quando vai chorar.
- Claro que não amor. – Vera pegou a filha no colo e secou seus olhos com os polegares. – Sabe que nunca faria isso. É só por uns tempos. – em seguindo sorriu e puxando as filhas para junto de si – Prometo que será divertido.
Vera estava triste e decepcionada tanto quanto as filhas, mas agora que haviam perdido tudo as filhas precisariam de um lar em que elas estivessem em segurança e conforto e, apesar das desavenças com tia Gertrudes, não havia outra pessoa em que poderia confiar. 
A despedida

- Cara, não acredito que vocês vão embora. – disse Sarah após um longo tempo em silêncio, digerindo a noticia que Vera acabou de dar.
As duas estavam sentadas na grama de frente para o lago que havia a algumas centenas de metros da casa de Sarah. Era um lago pequeno e calmo. No verão costumavam nadar nele e foi lá que Vera deu seu primeiro beijo. Lembrava disso agora e não pareceu tão bom quanto na época.
- Nem eu. É como ir para outro país. – Vera pegou uma pedrinha e jogou bem longe. A pedra caiu fazendo um pequeno barulho e criando alguns círculos em volta. – É tão estranho pensar em ir morar com minha tia-avó. Tipo ela tem o quê uns 90 anos?
Sarah e Vera caíram na gargalhada. Não era difícil as duas rirem até doer a barriga. A mãe de Sarah dizia que as duas pareciam duas hienas de tanto que riam. Talvez fosse verdade.
Sarah jogou os cabelos para traz e olhou para o céu. – Será que ele vai me esquecer?
- Quem, o Carlos?
- Não, a Azeda, dã ... – Vera bateu com o punho fechado na testa. – É claro que estou falando do Carlos. Justo agora que ele veio falar comigo. Eu sonhei com isso minha vida intera.
- Do quê está falando? – Sarah olhou para ela com aquela testa franzida de espanto- Você só o conhece há dois anos. Não exagera ta?
- Dois anos na vida de uma adolescente é muita coisa sabia?
Sarah olhou para o brilho que a luz fazia nas águas ondulantes do lago. Dava pêra ver seu contorno brilhante perfeitamente.
- Vou sentir sua falta. – Sarah estava com a voz trêmula.
- Também vou sentir a sua.
O vento começava a soprar mais forte. Era início de outono e as noites eram frias naquele lugar.
- Promete que vai me ligar todos os dias? – Vera perguntou.
- Do quê esta falando? –Sarah a olhou com aquelas sobrancelhas arqueadas. -Pensa que tenho uma mina de créditos? 


 Era uma manhã cinzenta por causa da fina garoa que caia vagarosamente. Milca estava chorosa nesse dia, querendo estar a todo o momento no colo da mãe. Raquel já tinha conversado com a pequena sobre a pequena separação, alegando que seria um pequeno passeio.
Ás dez horas o pai de Sarah, um homem muito grande – alto e largo – assomou á porta do quarto, não sem antes pigarrear.
- As malas já estão no carro. – seu grosso bigode balançou ao falar. Parecia ainda mais espesso e brilhante nessa manhã. Sarah confidenciou à Vera certa vez que seu pai passava óleo de oliva nos bigodes para amaciá-los
 Raquel abraçou uma vez mais as filhas. Joana, vestida num grosso casaco de lã, parecia magoada com mãe, embora essa tivesse de todos os meios tentado convencê-la de que seria apenas por uns meses e que tão logo estivesse em condições, as traria de volta.
- Bom precisamos ir – disse o homenzarrão. – O avião não espera. – brincou, e pegando Milca nos braços caminhou fortemente pela porta e saiu para a rua. Sarah e a mãe as aguardavam na sala.
- Fiz biscoitos. – disse a mãe de Sarah. Era sempre muito gentil e sempre com um prato de biscoitos a oferecer. Dizia que biscoitos de chocolate curavam até a alma. Vai ver ela tinha razão. E colocando o saquinho de biscoitos na mochila de Sofia – Pra comer no avião. – cochichou.
- Algum recado pro Carlos. – Sarah cochichou no ouvido de Vera quando se abraçaram. Estava brincando obviamente. Vera era tímida demais para mandar qualquer recado que fosse.
- Só o mantêm longe da Diana. – Vera piscou.
- Se já acabaram com os cochichos, podemos ir agora antes que percamos o vôo? – perguntou Joana já na porta. Estava com o semblante ainda mais fechado. E olhando para a mãe. – Já que estamos sendo mandadas embora, que vamos logo então, não quero me atrasar.
Raquel quis dizer alguma coisa, mas sua voz não saiu. – Deixa, ela vai acabar entendendo depois. – acalmou-a Vera, colocando carinhosamente a mão sobre seu ombro. – Eu falo com ela. – sorriu carinhosamente.
A Viagem para Torres, Santa Catarina foi tranqüila. Raquel comprou assentos na mesma fileira e Milca tinha se acalmado enfim. Joana não tinha falado uma só palavra durante toda a viagem já em compensação Sofia não parava de falar, mas nem isso fez com que Joana falasse nem que fosse para brigar com a irmã. Porém quando finalmente o avião aterrissou, ela olhou sarcasticamente para Vera e disse: - Então chegamos não é? Talvez ela não nos mande embora também.
Vera não discutiu, sabia que a irmã estava magoada e nada a faria mudar de idéia naquele instante. Teriam outra oportunidade para discutir sobre tudo o quê aconteceu. Agora ela precisava ficar com seus pensamentos.
No saguão do aeroporto logo avistaram tia Gertrudes. Aquela figura esguia e alta de cabelos grisalhos e olhos vivazes não era difícil de esquecer ou não notar, ainda mais vestida rigidamente e cinza escura, assim como seus olhos.
- Oi tia Gertrudes. – Gritou Sofia tão logo a viu. – Estamos aqui. – acenou vivamente.
Tia Gertrudes, pela cara que fez, não gostou dos gritos da pequena e apressou-se até elas, fazendo sinal a um homem uniformizado para que a acompanhasse. Era até engraçado ver tia Gertrudes, magra e alta feito um espeto andando tão ereta sendo seguida por aquele homenzinho barrigudo que mal conseguia acompanhá-la.
- Ola meninas, fizeram uma boa viagem? – perguntou enquanto fazia sinal para que o motorista se encarregasse das malas.
Sofia correu e abraçou as longas pernas da tia. – Estava com saudades de você.
- Oh! – Exclamou a tia, assustada e constrangida com a manifestação de carinho da sobrinha. – Sim, sim criança, eu também. – disse tentando soltar as mãos da menina de suas pernas. – Ora, por favor, está me amarrotando toda.
- Como vai tia? – Vera cumprimentou enquanto puxava Sofia pelo braço. – pare com isso Sofi, o quê a mamãe falou sobre ficar abraçando toda hora a velha Gertrudes? – Vera cochichou não que quisesse ser indelicada ao chamar a tia de velha.
- Vai quebrar ela ao meio. – Joana ironizou baixinho, não porque estivesse bem humorada, mas porque debochava da figura magra e ereta da tia.
Tia Gertrudes caminhava altiva, com seus ombros estreitos indicando o caminho que as meninas deveriam fazer e que, geralmente, era o de segui-la. Logo atrás, um pouco ofegante, ia o motorista com seu rosto agradável de homem do sul descendente de italianos, provavelmente, ou quem sabe de portugueses, típico de Passo de Torres. Raquel havia dito ás meninas que aquela pequena cidade do sul de Santa Catarina fora colonizada por portugueses, italianos e espanhóis. A própria tia Gertrudes era uma típica espanhola.
- Isso explica talvez o fato de que minha tia seja tão autoritária e brava.  – Mas não há o quê se preocupar, ela não morde. – disse fazendo cócegas em Sofia, que caiu na maior algazarra.
Vera lembrava-se disso agora, ao ver a tia com o cenho franzido e os lábios contraídos como se estivesse sempre com uma insatisfação qualquer.
A temperatura estava realmente baixa. Joana, vestida em seu grosso casaco de lã, aquecida, saboreava agora o fato de Vera ter dito que derreteria debaixo daquela Lã toda enquanto que agora a irmã tremia os dentes e tentava como podia proteger-se do vento.
Sorte a mãe ter colocado na mochila de Milca e Sofia blusas extras.
- Para o caso de esfriar. – justificou como sempre fazia, mesmo em dias quentes.
Lá fora caia uma chuva fina e gelada, tia Gertrudes esfregou as mãos vigorosamente, e apontou para um carro que estava estacionado a poucos metros das meninas.
- Não acredito. Mas que velharia é essa? – Vera ficou boquiaberta diante daquele carro velho, um dodge conforme disse o simpático e orgulhoso motorista, numa cor verde água muito apagada.
- Porque não estou surpresa? – Joana revirou os olhos num desdém, mas Sofia não compartilhou da decepção das irmãs e, motivada pela euforia de sempre correu para dentro do carro como sempre fazia quando saiam com a mãe.
Tia Gertrudes não compartilhou da alegria da menina, e repreendendo-a, pediu para que ficasse quieta alegando uma dor de cabeça. Sofia não era dessas que desistia fácil, pois todo o trajeto do aeroporto até a casa foi fazendo mil perguntas e mexendo em casa pedacinho daquele carro que estivesse ao alcance de suas mãozinhas ágeis, embora tia Gertrudes a olhasse energicamente e Joana a beliscasse de dois em dois minutos para que ficasse quieta, mas quando chegaram finalmente em frente ao portão da casa, elas não puderam a creditar no que estavam vendo.
-Uaaaauuu! Sofia foi a primeira a exclamar, aliás, a única, porque Joana e Vera estavam perplexas demais para emitir qualquer ruído.
O carro parou frente a um enorme portão de ferro acinzentado que parecia pesado demais para ser aberto manualmente, onde havia em cada uma das colunas que o sustentavam a estátua de uma grande coruja, mas quando o motorista parou frente a ele, em questão de segundos foi abrindo vagarosamente enquanto fazia um barulho de ferro rangendo, dando lugar a uma estrada com calçamento de pedras retangulares também acinzentadas que levavam a uma grandiosa casa de três andares firmemente posta no centro do terreno.
- Tia Gertrudes mora num castelo – Sofia Balbuciou. – Olha Milca, vamos morar num castelo, como princesas. – Seus olhinhos brilhavam tanto enquanto o carro ia lentamente pela estrada, que o gentil motorista, olhando pelo retrovisor, sorriu comovido com a emoção da menina. Milca, contagiada pelo êxtase de Sofia, também dava seus gritinhos de euforia enquanto tia Gertrudes, dura feito as pedras do calçamento, ia sentada ao lado do motorista.
- Não seja tola. É apenas uma casa velha e idiota. Deve estar cheia de fantasmas. – Joana disparou contra a irmã.
Mas nem mesmo esse comentário maldoso tirou o prazer que a pequena estava sentindo naquele momento.
A casa, pintada de um branco amarelado, tinha um grande telhado em camadas e várias janelas na frente com vidraças que reluzia com a fraca luz do sol que dava lugar já ao escurecer.
- Mamãe tinha razão, tinha Gertrudes é muito rica. – Vera disse
Logo frente á casa havia um grande jardim muito bem cuidado, dos dois lados, com uma passagem entre eles que dava acesso á entrada da frente. Logo á esquerda do terreno, um pouco ao fundo notava-se um lago um havia muitos patos e cisnes e do lado direito era onde o carro foi estacionado.
Tia Gertrudes, assim que o motorista lhe abriu a porta, desceu do carro toda imponente e aguardou que ele abrisse a porta para que as meninas saíssem e após ele pegar as malas ela encaminhou-se para a entrada, balançando a saia num barulho de atrito de tecido pesado.
Vestida rigorosamente com um uniforme preto abotoado até o pescoço e avental branco rendado nas laterais, uma senhora de pele muito branca com pálidos olhos azuis e cabelos grisalhos num cinza desbotado, sorria afetuosamente para as meninas que, uma a uma, entrando por aquela enorme porta que se abria em duas partes, a cumprimentavam com um sorriso tímido.
Carregando no colo a pequena Milca que, estranhando o ambiente começava a choramingar, Vera seguia a tia, que ia na frente como que abrindo caminho no vento.
Os ambientes da casa eram amplos e muito claros, composto com muitos móveis que eram verdadeiras relíquias mais pelo tempo de existência do que pelo valor. No hall de entrada havia um pequeno banco de madeira de dois lugares ao lado de um porta guarda-chuva antiguíssimos e alguns quadros de pessoas que pareciam tão velhas quanto os móveis.
Passando para o ambiente seguinte as meninas se depararam com uma sala com três grandes saídas em cada parede, alguns sofás largos de estampa marrom aveludado muito antigo e um piano de calda que reluzia muito. Um grande quadro com a pintura da ultima ceia estava sobre uma lareira acesa.
- Meninas, creio que estão muito cansadas, por favor, subam e tomem um banho. Mandarei chamá-las quando o jantar estiver servido.
E dizendo para que o motorista levasse as malas até o quarto, desapareceu por uma das portas.
É de se imaginar que numa casa daquele tamanho cada uma das meninas teria seu quarto, mas o que não podiam supor é que os quarto fossem tão grandes daquele jeito. Vera não acreditou quando viu que cada quarto tinha seu banheiro.
- Bom; nada mal. – exclamou estupefata.
Joana também não deixou se espantar com o que considerava um sonho. A cama era maior do que a que ela e suas irmãs estavam habituadas. Feita de madeira pesada e pintada de branco, tinha uma grande cabeceira com um beija-flor talhado ao centro. O armário não menos imponente e também branco com os mesmo entalhe de beija-flor ao centro só que em tamanho maior tinha um espelho muito limpo que refletia todo o quarto, com exceção da janela com vista para o norte do terreno e de onde se podia ver o grande portão de entrada.
- Dá pra acreditar? – Vera perguntou aparecendo á porta.  – Esse nossos quartos são quase do tamanho de nossos antigos quartos. –
A lembrança dos antigos quartos a fez pronunciar essas últimas palavras com um tom muito melancólico.
- Pois é. – Joana sentou-se na beirada da cama e olhou para o teto. Estranhou um lustre tão grande. – Será que isso está bem seguro? – perguntou
- Bom saberemos se você estiver viva amanhã e ele ainda no teto. – brincou Vera, mas Joana não achou graça nenhuma.
- Você não tem que tomar banho? – levantou e foi até sua mala que o gentil motorista havia colocado próximo ao armário.
- Entendi a direta. Vou ver como está Milca. Acredita que Sofi está simplesmente delirante com a casa? – perguntou antes de sair.
- Uhum! Imagino – respondeu sem dar muito atenção enquanto abria a mala com um único e rápido puxão no zíper. – Sofia é uma menina boba. – completou ao se abaixar e pegar uma blusa, que analisou e jogou novamente na mala. – Olha será que... Você pode me deixar tomar um banho?
- Não precisa ser tão agressiva ta legal?- Vera tentava manter um diálogo com a irmã, mas essa tarefa era sempre muito difícil.
Joana virou as costas assim que pegou a tolha. – Feche a porta, por favor.
O corredor que levava até o quarto de Sofia era largo e claro, mas Vera não deixou de pensar que era sombrio pelo fato de que as paredes estavam repletas de quadros de pessoas. Quadros antigos com grossas molduras prateadas, um antigo aparador com pés virados para fora e um abajur com estampa com flores amarelas também faziam parte daquela decoração um tanto quanto curiosa.
- Vera, Vera, você não vai acreditar no tamanho da minha cama.  Da pra pular quase até o teto. – Sofia estava simplesmente eufórica. Não conseguia parar de pular e esfregar as mãozinhas.
- O quê? Sofia não pode pular na cama, tinha Gertrudes não vai gostar nada, nada disso.
Mas Sofia nem escutou o quê a irmã dizia, pegou pela mão e a puxou pelos metros restantes até a porta.
Nossa. – Vera exclamou. – Isso é incrível. Realmente tia Gertrudes caprichou.
Apesar de tia Gertrudes ser uma mulher autoritária e séria, não podia acreditar que ela tinha decorado aquele quarto para Sofia e Milca. Ela tinha caprichado muito. – Mamãe não vai acreditar quando eu contar. – exclamou.
A parte dominante do quarto era rosa, mas tinha também alguns tons de azul, o quê realmente ficou muito bonito esse contraste. Ao lado das camas haviam grandes tapetes arredondados e felpudos, dois grandes ursos ao lado de cada cama, no chão, e entrando por uma porta dava-se num quarto contíguo onde Vera pode notar que se tratava de um quarto de baba.